Fechei com força aquela mala enorme de rodinhas desgastadas de uns bons 7 anos atrás e a coloquei de pé no chão. Eram os últimos dias, e eu deveria me certificar de que todos os papéis rabiscados e muitíssimo bem amassados já estariam suficientemente presos, perdidos em pedaços desiguais e zipados pra sempre em meio ao mofo macio predominante ali dentro.
Lembro-me de ter escrito uma mesma frase várias e várias vezes.
Na primeira, rabisquei.
Na segunda, amassei.
Na terceira, rasguei em mil pedaços.
De alguma forma, prometi que iria sair - Assim como tantas outras coisas, do começo, que acabei tão facilmente deixando pra trás, de uma forma sutil que aprendi.
Aprendi de verdade por esses dias quentes. E principalmente durante os gelados. A mudança de clima costuma ser saudável, mesmo quando inesperada.
Deitei de pernas para a cabeceira, segurando insegura e, quase com saudade, a alça, enquanto previa a madrugada. Fazia tempo que não amanhecia tão claro.
O final (ou o começo, numa visão mais esperançosa), estava cada vez mais próximo e eu, apegada, o adiava inutilmente em devaneios internos, onde tudo era estagnado e ridículo.
Eu sabia do necessário, mas não escondia com totalidade meus receios. Esses mesmos de sempre, os receios, malditos receios, que nunca se vão por completo.
Costumam permanecer durante mais algum (curto) período. Pelas vezes que vivenciei, eu digo. Não é nada regrado. Receios descontrolados.
Por mais um minuto, não resisti e reabri a mala. Olhei pela última vez todas aquelas letras perdidas, escritas com força e com fraqueza; Implorando para algumas que logo fossem embora, enquanto, para com outras, lamentando sua inevitável partida.
Por dentro, a mala cheirava a perfume e pêlo de cachorro. A cansaço e chuva. Algo quente.
Me demorei a fechá-la novamente, diferente de como fiz no início. Minha determinação, afinal, balançando diante do incerto. Como sempre foi, mas talvez, agora, com uma colher, mesmo uma colherzinha de chá, de tranquilidade. Algo passava súbito pela minha cabeça e por entre meus órgãos enquanto fechava toda aquela bagunça de lembranças, tombos e aprendizados. Toda aquela mistura de odores e texturas. Tudo aquilo, sendo levado para outro lugar.
Deixei um vão do tamanho de um palmo, aberto entre os zípers. Algo ali dentro ainda seria (muito) utilizado. Sorri enquanto tremia ao olhar para a mala, iluminada agora apenas pela luz sépia do abajur.
- Boa noite. - disse, para algo que já foi, ou para algo que está por vir, ainda com os lábios retorcidos num meio sorriso.
E apertando o interruptor, esfregando a borracha ou, simplesmente, fechando o zíper de uma mala, apaguei.
sábado, 25 de dezembro de 2010
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Manual de instruções
Não sei iniciar.
Pode parecer besteira, como em um começo de conversa, um começo de programa ou um começo de texto, fácil e cotidiano. Acontece que eu não sei.
Não consigo iniciar quando tudo o que já estava em seu devido lugar é arrastado para todos os lados, transformando em caos - na minha velha percepção dramática - aquilo que eu mesma, com o tempo, havia organizado de maneira que eu sempre pudesse achar quando precisasse.
Poderia ser simples, é bem verdade. Como se, apertando um botão localizado ao lado esquerdo da tela do computador, todas as possiblidades aparecessem, se abrindo num leque de opções de diversas cores, esperando serem escolhidas através de mais alguns cliques.
Só que o que aprendi, ou melhor, o que me fizeram aprender - não me pergunte nem tente adivinhar quem, eu já busquei por inúmeras tardes chuvosas (aquelas nas quais sentimos que, ao deitar, tudo parece vibrar em um tom mais cinza, úmido e pensante) e lhe digo: Não cheguei a resultado suficiente algum! - é que as opções que nos sorriem durante nossos cliques involuntários e um tanto mais pesados, vêm recobertas por uma espessa camada, nada agradável, chamada por aí de dificuldade.
O fato é que, assim, não sabendo iniciar, me jogo no impulso cru e desprovido do estudo supostamente necessário que possuo - e enfio esse 'supostamente' por se tratar do meu subconsciente, que acha que pensa por si - de conseguir uma resposta, insistindo em prosseguir dessa minha maneira nada ensaiada e não tão convencional, se repararmos nas circunstâncias, a buscar um algo sobre o qual eu nem saberia dissertar.
Fico em cima do muro quanto à virtude que essas tentativas podem levar a surgir, então deixo clara a participação de alguns de fora, de visão menos embaçada, que me levaram a pensar na possibilidade de algum sucesso, e a não chegar, mais uma vez, a uma opinião formada.
Me diga você, então, o que acharia se visse uma situação como essa... Talvez até já tenha visto, não me parece ser algo assim, tão incomum.
Será?
Um sorriso no rosto, algumas palavras simpáticas e a expressão de calma e suficiência na face, como quem diz 'está tudo sob controle e eu gosto de você!'
De que outra forma poderia agir, afinal?
Não sei iniciar, eu já disse, mas pretendo finalizar alguma coisa, seria o mínimo a se esperar.
Confesso que achei que era melhor com finais... E agora me deparo com um texto bíblico em seu tamanho, de idéias jogadas e reprimidas, períodos imensos e uma conclusão não escrita, a qual se mostra presente dentro de alguma caixa empoeirada da minha memória, mas que teima em se submeter ao resumo de linhas a esperá-la, já impacientes.
Não sei iniciar.
Não sei finalizar.
Tenho medo do que está por vir, é verdade.
Me conformo, afinal, com o fato de que nada me resta além de continuar absorta nos dias de chuva, sem buscar e sem pressa: Esperando, sem premeditações, o momento impulsivo, o momento vazio daqueles sentimentos repressores e ansiosos, para me jogar, por mais vezes, em tudo aquilo que espera me amedrontar nos próximos verões.
Pode parecer besteira, como em um começo de conversa, um começo de programa ou um começo de texto, fácil e cotidiano. Acontece que eu não sei.
Não consigo iniciar quando tudo o que já estava em seu devido lugar é arrastado para todos os lados, transformando em caos - na minha velha percepção dramática - aquilo que eu mesma, com o tempo, havia organizado de maneira que eu sempre pudesse achar quando precisasse.
Poderia ser simples, é bem verdade. Como se, apertando um botão localizado ao lado esquerdo da tela do computador, todas as possiblidades aparecessem, se abrindo num leque de opções de diversas cores, esperando serem escolhidas através de mais alguns cliques.
Só que o que aprendi, ou melhor, o que me fizeram aprender - não me pergunte nem tente adivinhar quem, eu já busquei por inúmeras tardes chuvosas (aquelas nas quais sentimos que, ao deitar, tudo parece vibrar em um tom mais cinza, úmido e pensante) e lhe digo: Não cheguei a resultado suficiente algum! - é que as opções que nos sorriem durante nossos cliques involuntários e um tanto mais pesados, vêm recobertas por uma espessa camada, nada agradável, chamada por aí de dificuldade.
O fato é que, assim, não sabendo iniciar, me jogo no impulso cru e desprovido do estudo supostamente necessário que possuo - e enfio esse 'supostamente' por se tratar do meu subconsciente, que acha que pensa por si - de conseguir uma resposta, insistindo em prosseguir dessa minha maneira nada ensaiada e não tão convencional, se repararmos nas circunstâncias, a buscar um algo sobre o qual eu nem saberia dissertar.
Fico em cima do muro quanto à virtude que essas tentativas podem levar a surgir, então deixo clara a participação de alguns de fora, de visão menos embaçada, que me levaram a pensar na possibilidade de algum sucesso, e a não chegar, mais uma vez, a uma opinião formada.
Me diga você, então, o que acharia se visse uma situação como essa... Talvez até já tenha visto, não me parece ser algo assim, tão incomum.
Será?
Um sorriso no rosto, algumas palavras simpáticas e a expressão de calma e suficiência na face, como quem diz 'está tudo sob controle e eu gosto de você!'
De que outra forma poderia agir, afinal?
Não sei iniciar, eu já disse, mas pretendo finalizar alguma coisa, seria o mínimo a se esperar.
Confesso que achei que era melhor com finais... E agora me deparo com um texto bíblico em seu tamanho, de idéias jogadas e reprimidas, períodos imensos e uma conclusão não escrita, a qual se mostra presente dentro de alguma caixa empoeirada da minha memória, mas que teima em se submeter ao resumo de linhas a esperá-la, já impacientes.
Não sei iniciar.
Não sei finalizar.
Tenho medo do que está por vir, é verdade.
Me conformo, afinal, com o fato de que nada me resta além de continuar absorta nos dias de chuva, sem buscar e sem pressa: Esperando, sem premeditações, o momento impulsivo, o momento vazio daqueles sentimentos repressores e ansiosos, para me jogar, por mais vezes, em tudo aquilo que espera me amedrontar nos próximos verões.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
"It looks like the end of history as we know...
...It's just the end of the world".
Não era apenas o reflexo do sol cansado daquelas tardes perenes que batia na janela, como quem procura algo impossível de se ter de volta. Havia mais, alguns outros tantos motivos por que ficar. E por que sair correndo dali.
Respirou de volta, pela garganta, todas as fumaças de todos os cigarros usados naqueles dois últimos anos, enquanto olhava absorta pelo vidro empoeirado.
- Acabou, afinal. - Foi o que lhe disseram, uma semana atrás, com um sorriso aliviado nos lábios, como se fosse fácil.
Como se fosse fácil!
Tentou se concentrar em movimentar os olhos, tirando-os, assim, da inércia por alguns poucos instantes, mas o duro fardo de segurar sobre as costas todos aqueles pesados dias por uma última vez, lhe encobria da mais fina camada de vergonha, alívio, receio, alívio, medo, alívio - e lhe petrificava o olhar.
Podia respirar, enfim, longe de tudo o que mais lhe incomodava - palavras suas - embora parecesse, esse fim, o mais incerto - mesmo mais que aquele começo.
Era ainda mais do que uma inércia, o que se observaria - se alguém parasse para observar - ali, naquele lugar onde encontrava-se metade janela, metade vida. Era um retroceder de horas, de momentos até então guardados para nunca serem relembrados, onde cada sentimento voltava à tona, como se de fato revivesse, como se gostasse.
Como se... gostasse.
Piscou os olhos por mais uma vez, sentindo-os arder de tão secos.
Nenhuma lágrima caiu, mas algo pulsava doentio por dentro, como se, em algum pedaço, em algum instante, algo fizesse sentido, afinal.
Como se gostasse.
Não era apenas o reflexo do sol cansado daquelas tardes perenes que batia na janela, como quem procura algo impossível de se ter de volta. Havia mais, alguns outros tantos motivos por que ficar. E por que sair correndo dali.
Respirou de volta, pela garganta, todas as fumaças de todos os cigarros usados naqueles dois últimos anos, enquanto olhava absorta pelo vidro empoeirado.
- Acabou, afinal. - Foi o que lhe disseram, uma semana atrás, com um sorriso aliviado nos lábios, como se fosse fácil.
Como se fosse fácil!
Tentou se concentrar em movimentar os olhos, tirando-os, assim, da inércia por alguns poucos instantes, mas o duro fardo de segurar sobre as costas todos aqueles pesados dias por uma última vez, lhe encobria da mais fina camada de vergonha, alívio, receio, alívio, medo, alívio - e lhe petrificava o olhar.
Podia respirar, enfim, longe de tudo o que mais lhe incomodava - palavras suas - embora parecesse, esse fim, o mais incerto - mesmo mais que aquele começo.
Era ainda mais do que uma inércia, o que se observaria - se alguém parasse para observar - ali, naquele lugar onde encontrava-se metade janela, metade vida. Era um retroceder de horas, de momentos até então guardados para nunca serem relembrados, onde cada sentimento voltava à tona, como se de fato revivesse, como se gostasse.
Como se... gostasse.
Piscou os olhos por mais uma vez, sentindo-os arder de tão secos.
Nenhuma lágrima caiu, mas algo pulsava doentio por dentro, como se, em algum pedaço, em algum instante, algo fizesse sentido, afinal.
Como se gostasse.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Casualidade de um telefonema escrito.
- É que a gente precisa se encontrar, sabe como é, muito tempo sem conversar me deixa assim, meio arrastada.
- Assim que a sopa esfriar, prometo que chego aí.
- Ah! Não se esqueça do açúcar! Muito açúcar e muita canela.
- Você e essa sua mania... Cuidado com os excessos, menina. E a canela, é mesmo necessária? O gosto já é forte sem ela.
- Gosto mais porque fica exótico. Adoro coisas exóticas.
- Adoro papos sem fim... Assim, filosóficos. Você está assim pra mim, hoje.
- Estou assim, como uma conversa? E sem um fim?
- Está assim, como eu gosto. Por isso que às vezes fico de saco cheio de você.
- Pois então alegre-se: É recíproco!
- Não gosto dessa palavra. Sempre me perco nela.
- Às vezes me perco em palavras também... Mas é nelas que sempre acabo por me achar.
- São tão detestáveis.
- E amáveis, na mesma linha.
...
(E por aí vai)
- Assim que a sopa esfriar, prometo que chego aí.
- Ah! Não se esqueça do açúcar! Muito açúcar e muita canela.
- Você e essa sua mania... Cuidado com os excessos, menina. E a canela, é mesmo necessária? O gosto já é forte sem ela.
- Gosto mais porque fica exótico. Adoro coisas exóticas.
- Adoro papos sem fim... Assim, filosóficos. Você está assim pra mim, hoje.
- Estou assim, como uma conversa? E sem um fim?
- Está assim, como eu gosto. Por isso que às vezes fico de saco cheio de você.
- Pois então alegre-se: É recíproco!
- Não gosto dessa palavra. Sempre me perco nela.
- Às vezes me perco em palavras também... Mas é nelas que sempre acabo por me achar.
- São tão detestáveis.
- E amáveis, na mesma linha.
...
(E por aí vai)
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Contato
"Somos tão subordinados, por acaso estamos de mãos dadas sem nos conhecer"
Estar sozinha ou rodeada de muita gente em um trem não tem diferença. Ninguém prefere que haja mais um corpo ali.
Não que as queiram mal, eu digo, as pessoas, não as querem mal, não é isso. Apenas esperam que esta ou aquela logo se levante para sentar em seu lugar.
A verdade é que a verdadeira caridade da 'bonita ação para com o outro' não existe, a menos que a verossimilhança esteja como estampa nas caras feias dos demais, coitados, sentados ao lado, julgando todos os 'maus atos', e as 'más vontades', e as 'faltas de ética' que ali se procedem.
Como quando a questão que pára os olhares de todo o vagão é a que envolve ceder o assento àquela senhorinha cheia de sacolas, e tão bondosa.
Diferente de todo o resto dos intrometidos ensaiados.
"Todo dia enfileirados em ordem decrescente de importância social"
O segundo, o da noite passada, cada vez mais remoto.
O terceiro se esvaindo, num desgaste diário de horas contadas e dias curtos.
Alimentando e finalizando a cadeia daqueles mais de quinze carimbados, fotografados e entulhados carinhosamente em uma caixa de sapatos encapada com recortes amarelos, que dão a ela um certo tom nostálgico.
É o tão falado "Começo Do Fim", chegando agora, em passos rápidos.
"Sábios são aqueles que se encontram fora de alcance, preferiram simplesmente se ausentar"
Através de números e truques sortidos, a cor parece vagarosamente voltar para dentro do corpo. E mais que isso.
Até então, inconfessável gesto, mas, é verdade, minhas próprias íris, minhas próprias pupilas, que falam por si, elas não me enganam, nunca me enganam. Nunca me enganaram.
Digo então que te quero bem.
Quero-nos bem, é isso.
"Não se precipite, neste precipício todos vão cair.
Nós não temos medo de cair".
Estar sozinha ou rodeada de muita gente em um trem não tem diferença. Ninguém prefere que haja mais um corpo ali.
Não que as queiram mal, eu digo, as pessoas, não as querem mal, não é isso. Apenas esperam que esta ou aquela logo se levante para sentar em seu lugar.
A verdade é que a verdadeira caridade da 'bonita ação para com o outro' não existe, a menos que a verossimilhança esteja como estampa nas caras feias dos demais, coitados, sentados ao lado, julgando todos os 'maus atos', e as 'más vontades', e as 'faltas de ética' que ali se procedem.
Como quando a questão que pára os olhares de todo o vagão é a que envolve ceder o assento àquela senhorinha cheia de sacolas, e tão bondosa.
Diferente de todo o resto dos intrometidos ensaiados.
"Todo dia enfileirados em ordem decrescente de importância social"
O segundo, o da noite passada, cada vez mais remoto.
O terceiro se esvaindo, num desgaste diário de horas contadas e dias curtos.
Alimentando e finalizando a cadeia daqueles mais de quinze carimbados, fotografados e entulhados carinhosamente em uma caixa de sapatos encapada com recortes amarelos, que dão a ela um certo tom nostálgico.
É o tão falado "Começo Do Fim", chegando agora, em passos rápidos.
"Sábios são aqueles que se encontram fora de alcance, preferiram simplesmente se ausentar"
Através de números e truques sortidos, a cor parece vagarosamente voltar para dentro do corpo. E mais que isso.
Até então, inconfessável gesto, mas, é verdade, minhas próprias íris, minhas próprias pupilas, que falam por si, elas não me enganam, nunca me enganam. Nunca me enganaram.
Digo então que te quero bem.
Quero-nos bem, é isso.
"Não se precipite, neste precipício todos vão cair.
Nós não temos medo de cair".
uma idealização.
O tênis vermelho esfarrapado, a camiseta relatando em letras grandes a grande cidade de Nova Iorque. Os braços de veias saltadas terminavam com um grosso livro nas mãos.
- Bonitos óculos. - Ela disse ao menino, ainda a analisá-lo.
- Obrigado.
- O que você está lendo?
- Nietzsche. - e levantou o livro na altura do rosto
A menina sorriu, deslumbrada.
- Estou apaixonada. - E entregou-lhe um post-it com o número do telefone.
- Bonitos óculos. - Ela disse ao menino, ainda a analisá-lo.
- Obrigado.
- O que você está lendo?
- Nietzsche. - e levantou o livro na altura do rosto
A menina sorriu, deslumbrada.
- Estou apaixonada. - E entregou-lhe um post-it com o número do telefone.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Ilustríssimo texto pobre
Interesse plastificado, um retrato mal colocado, mal colado, torto.
Gostaria de ter as palavras certas nas horas certas, e só isso - mas essas minhas já velhas conhecidas fazem questão de brincar, soltas e pobres, nos meus devaneios.
Me surgem de um ímpeto até hoje desconhecido, e rolam aleatórias formando um contexto aceitável, em olhos alheios que, na verdade, nada sabem, nada entendem.
Mas é assim que acontecem, e aparecem quando bem querem. Criam seus shows improvisados e recebem daqueles que as assistem, com prazer, os seus sinceros aplausos superficiais - embora de tamanho valor para um ego maltratado como o meu.
Então, por agora, me digam. Me mostrem, me impulsionem a um algo de fato desconhecido, tudo bem, talvez não tão desconhecido assim, mas singular, na maneira em que é único por si, um fato conhecido, mas novo, de uma outra forma, de outras características, de outros sentimentos.
Sentimentos... Como eu, eu própria, poderia falar deles? Nem ao menos sei o que me surge oscilando de dia em dia, por dentro, por fora, não sei!
E nem me atrevo a tentar saber, sobre os meus, sobre os seus, sobre os deles, tamanha frustração qual não receberia...!
E em períodos longos demais - já diria a corretora - me perco outra vez, na mão pelas mesmas de sempre, essas mesmas ingratas de que tanto falo, e que tanto comigo faltam, em momentos como hoje, em momentos como sempre.
O ideal em suas férias integrais.
Gostaria de ter as palavras certas nas horas certas, e só isso - mas essas minhas já velhas conhecidas fazem questão de brincar, soltas e pobres, nos meus devaneios.
Me surgem de um ímpeto até hoje desconhecido, e rolam aleatórias formando um contexto aceitável, em olhos alheios que, na verdade, nada sabem, nada entendem.
Mas é assim que acontecem, e aparecem quando bem querem. Criam seus shows improvisados e recebem daqueles que as assistem, com prazer, os seus sinceros aplausos superficiais - embora de tamanho valor para um ego maltratado como o meu.
Então, por agora, me digam. Me mostrem, me impulsionem a um algo de fato desconhecido, tudo bem, talvez não tão desconhecido assim, mas singular, na maneira em que é único por si, um fato conhecido, mas novo, de uma outra forma, de outras características, de outros sentimentos.
Sentimentos... Como eu, eu própria, poderia falar deles? Nem ao menos sei o que me surge oscilando de dia em dia, por dentro, por fora, não sei!
E nem me atrevo a tentar saber, sobre os meus, sobre os seus, sobre os deles, tamanha frustração qual não receberia...!
E em períodos longos demais - já diria a corretora - me perco outra vez, na mão pelas mesmas de sempre, essas mesmas ingratas de que tanto falo, e que tanto comigo faltam, em momentos como hoje, em momentos como sempre.
O ideal em suas férias integrais.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Ópera de Machado
Começo assim, como começaria em qualquer palco, uma peça ao público, sem cortinas, sem sapatos, sem receios. Somente as meias.
Um salto em direção à platéia, aos desconhecidos, aos amantes, aos queridos, aos críticos e ressentidos, aos tantos e tantos, em cantos, em solos, sozinhos, calados, à espera. Envoltos em uma expectativa, uma qualquer, uma expectativa, sem perceber, de qualquer beleza, de qualquer sujeira, de qualquer ruído, de qualquer, de.
Uma expectativa de.
E entre relógios barulhentos pernas inquietas suspiros mal contidos bocejos óculos sendo postos em-seus-devidos-lugares papéis de bala garrafas de plástico esmagadas pigarros espirros mordidas suor, forma-se a pausa - em meio à abdicação dos ponteiros e a respiração que se prende.
No fim, que é o começo, é tudo som, luz e brilho.
Um correr silencioso sem marcações, um leque de cores, em meio à dança, aos vestidos volumosos, ao efeito da luz que quase cega, para depois abaixar-se, reduzir-se a um pálido cômodo, que intimida, que relaxa, que faz pulsar os músculos e os olhos, em meio à vibração, às cores fortes, às pálidas, à interação de cada gesto, de cada fala, de cada sopro.
O lirismo do momento.
Por toda a noite quase nem sentida, por todo o espaço. A música, a literatura e o teatro, juntos em uma só voz. Em um só corpo.
Um salto em direção à platéia, aos desconhecidos, aos amantes, aos queridos, aos críticos e ressentidos, aos tantos e tantos, em cantos, em solos, sozinhos, calados, à espera. Envoltos em uma expectativa, uma qualquer, uma expectativa, sem perceber, de qualquer beleza, de qualquer sujeira, de qualquer ruído, de qualquer, de.
Uma expectativa de.
E entre relógios barulhentos pernas inquietas suspiros mal contidos bocejos óculos sendo postos em-seus-devidos-lugares papéis de bala garrafas de plástico esmagadas pigarros espirros mordidas suor, forma-se a pausa - em meio à abdicação dos ponteiros e a respiração que se prende.
No fim, que é o começo, é tudo som, luz e brilho.
Um correr silencioso sem marcações, um leque de cores, em meio à dança, aos vestidos volumosos, ao efeito da luz que quase cega, para depois abaixar-se, reduzir-se a um pálido cômodo, que intimida, que relaxa, que faz pulsar os músculos e os olhos, em meio à vibração, às cores fortes, às pálidas, à interação de cada gesto, de cada fala, de cada sopro.
O lirismo do momento.
Por toda a noite quase nem sentida, por todo o espaço. A música, a literatura e o teatro, juntos em uma só voz. Em um só corpo.
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