quarta-feira, 26 de junho de 2013

Fazia tempo
que não chovia
que não escorria
gota
assim.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

6 de junho - Capítulo I

Oito da noite, quinta-feira na Paulista. Seria normal trombar com alguns tantos engravatados entristecidos, cansados pela rotina laboral à qual são diariamente submetidos. A burocracia, os carrões e tudo bem, tudo sempre bem, que era quase sexta, já era quase amanhã. Explosão. Estávamos imersas na loja de chocolates, a qual largamos às pressas, e só porque "corre, vem ver, vem ver!". Multidão. Jovens de preto, bandeiras coloridas, gente estampada-escancarada; carregavam faixas de letras grandes que condenavam o aumento da passagem de ônibus. "3,20 é roubo!", e como era, e como é. Juntamos crenças e sapatos, "Ésse-pê parou!", respiração ofegante, batuque de rua, batuque aqui de dentro. "Se a passagem aumentar!", sacos de lixo derrubados, fogo e fumaça. "A cidade vai parar!", vidros dos metrôs quebrados, pichações. A primeira cabine da polícia sendo derrubada e chutada bem ali, do nosso lado. Mascarados, realizados, sorriam e se aplaudiam. Cúmplices, presentes, aplaudíamos em uníssono, mudas em sorrisos extasiados. A Avenida dominada por nós.
O caos era de um desequilíbrio organizado. Unidos, todos, por um mesmo ideal - ainda que unidos, todos, sobre si mesmos, por suas vertentes próprias. "Vocês tão olhando feio por quê? Andam de carro, né!". Olhos assustados- engravatados, surpresos pelo não convencional em meio à tradicional rotina cinza - condenavam os "meliantes". E olha o trânsito, a cidade parou. E olha a baderna, a cidade parou. E olha pra gente: a-cidade-parou.
Espera, espera, não olha agora, mas acenderam as luzes - e não as da avenida, que conseguimos apagar, cidade escura moldada à nossa cor - acenderam as luzes vermelhas, aquelas ali atrás que vêm embaladas em incômodo: sirene. "Sem correr, sem correr!" Espanto. "Sem correr, sem correr!" Explosão. "Corre!".
A praça lotada dos mais diversos figurinos deu lugar a tiros de borracha, spray de pimenta e um batalhão de homens nervosos querendo impor respeito. Nunca me deram esse respeito, quis dizer. Quis dizer, mas que infâmia, nunca me deram farda e chapeuzinho.
A multidão se escondia no shopping enquanto nós nos espreitávamos na primeira loja que nos surgiu; por acaso, intimista, lingeries. As portas do shopping fechando, as luzes-sirenes se acumulando, o nariz ardendo e os gritos, os gritos, os. Ironia escorria em risada desesperada. Entraram eles, todos, correram eles, todos, invadiram eles, todos, nada menos que o Shopping Paulista. Policiais pararam de atirar. Consumo, carrões, sentido. Como poderiam afinal, eles próprios, destruir seus próprios existires? Mas tudo bem, tudo bem, que quem apanha é sempre o errado - quem destrói e desrespeita o que é de direito público - esses manifestantes folgados, é claro.
Três ou quatro ou dezessete minutos dentro daquele aquário, em observação - sendo observadas? - até a tensão parar. "Vocês não estavam aí nesse enrosco não, né?". A dona da loja e o celular na aflição; mas tudo bem, tudo bem, que a filha estava muito bem dentro da faculdade, muito bem segura entre as paredes, entre os deveres. Respeitada, a menina.
Saímos pela lateral, contra-fluxo, pé-ante-pé visando a calçada já vazia, quando inúmeros carrões da tropa de choque passaram exibindo seus enormes pênis de plástico. Conseguia ler, em seus olhos, o famoso jargão "eles estavam pedindo". Dei risada. Andei e - agora sim - gargalhei quando vi o carro de bombeiros, com toda sua pompa e seu poder, apagando chamas gastas de uns sacos de lixo espalhados próximos à Brigadeiro. Sobras de um carnaval fora de época; na hora certa. Inversão momentânea, foco distoante, helicópteros e câmeras de tevê, ali, onde passa-se todo dia, sem perceber. Ali, onde vive-se todo dia, sem perceber.
Era câmera lenta na Paulista, agência Reuters ao vivo, escuridão e gás, mas estávamos atrasadas para o teatro. Contra-fluxo, inebriadas, esgarçamos nosso tempo, passos apressados flutuando excitação.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Era fim de tarde quando Maria chorou. Maria tem as pernas finas, o rosto pintado e um medo imenso de morrer. Maria, menina, não chora, vem cá. Maria, segura o medo, segura o choro, segura aqui a minha mão, ó. Lembro da cor do céu, vazio de fios e de nuvens, que resplandecia cortado pelo vento úmido quando Maria chorou. Era de um laranja seco, de arder o olho mesmo de quem, orgulhoso como eu, não chorava. Maria estava perdida, e se desencontrava mais e mais nos dias em que não me puxava para conversar.
Maria, estou aqui, se acalma. Maria, respira devagar, que a gente vive mesmo é pra se jogar, se ralar inteiro e sofrer. Resta só continuar respirando, ainda que sem fôlego.
Maria nunca foi de se permitir sentir, e isso porque sempre soube que era de sentir demais. Até que foi pega assim, desprevenida, pela invasão de um sentimento todo novo, sorrateiro e safado que adentrou seu corpinho de criança-crescida pra espancar os cantos mais frágeis de suas barreiras auto-construídas. Maria se apaixonou outra vez, quando já havia se prometido - e me jurado - que amar outra pessoa de novo era balela, maluquice intransponível, logo ela, logo ela, que já sentira tanto, não havia de ser, não não, era impossível. Maria perdida, me puxando pela mão.
Maria, a vida faz dessas com a gente. O céu laranja, o vento rasgado. Maria, põe um casaco, que vai esfriar. Maria me ouvia, mas não reagia. Eu titubeava. Maria chorava. Eu, resgatando o íntimo mais teatralizado de mim, contava com a mais opaca das expressões, na pretensão de sonegar minha - nossa - tranquilidade. Maria, seja forte - eu dizia pra ela e pra mim. Maria, paixão é desses sentimentos que só sabem trazer beleza - eu mentia pra ela e pra mim. Tudo vai acabar bem, Maria. Eu suspirava: que nem com a gente, Maria, que nem com a gente.
Maria chorava no meu colo que nem criança. Que nem eu chorei por tantas vezes no dela. Que nem quando a gente era criança. Que nem quando a gente é. Maria, a gente não é mais. Maria, pára de ter medo, vai. Eu desenrolava na língua palavras impensadas, como que para me livrar de carregá-las sozinha.
O céu laranja, o vento rasgado. Num sobressalto de segundo, o ar bateu ríspido no rosto de Maria e ela reagiu como alguém que, de repente, acorda. Maria concorda. A feição infantil sumia, e ela, a minha Maria, me olhava agora com olhos de realização. Maria agora entendia, e eu também. Era ela, não mais minha, Maria. Maria apaixonada me condenava por me compreender no mesmo estado. Maria me condenava por saber que essa nossa tristeza de agora era mera desculpa de quem tem medo, também, de viver. Maria apaixonada me deduzia, como sempre me deduzia, encantada. Maria agora cúmplice, agora reconhecível, espelho, sensibilidade. Maria, não fala isso, eu não quero ouvir.
Maria e eu, perdidas em encantos díspares. Eu e Maria, com medo de escorregar, separadas. Eu e Maria com medo de pedir auxílio para outro colo, para outras mãos.
Maria, me deixa segurar a sua mão?

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Hoje eu vim pra falar da tranquilidade dessas suas pernas tortas puxando as minhas e da calma ensonada que me transmite esse seu ombro com cheiro - tão seu - de banho recém tomado. Vim pra falar do bloco afro que traz a sensaçãozinha rígido-respirada de você-de-volta, do viaduto paulistano de purpurina forrado inteiro pra nós e também do nosso colchão inventado, retalhado em piso de madeira, pronto no nosso imaginário de desejos a serem realizados (se equilibrando entre o crepe europeu e a pipoca com filme no sofá). Vim pra falar da inspiração-expiração suspirada que me invade quando você solta o cabelo lá de cima até o meio das costas, dá risada com o grampo no canto do lábio e sai pulando que nem criança boba que faz arte. Vim falar de artista, atriz, menina linda-sensível-intensa que você é, e do bem que faz numa tarde de domingo, numa madrugada de sexta, num começo de noite de segunda-terça-quarta-quinta e num sábado inteirinho. De correr na rua, de dançar pulando (ou de pular dançando), de todos os sentidos e sentimentos, "respirando humaneza sem culpa", de mãos dadas.

domingo, 14 de abril de 2013

"Há dois 'Eu posso' e um 'Eu preciso'
E depois um 'Eu devo'.
Tão infinito o compromisso
Que há num 'Eu quero'!"
(Emily Dickinson)
De sensações. A cada instante. Porque não conseguimos ser além de sentir. Híbrido.
O ponto certo da sensatez que mistura o "é" com o "sen-tir-se". Se permitir. Sentir, e ponto.
Que sentimos um mundo, e um tanto reprimido, e um tanto guardado, querendo ser vivido. Um eterno prestes-a-ser-vivenciado.
Por culpa intransponível de um quê medroso, tênue-viciado - irrompível a olho, corpo e senso nus. Um quê inexplicado.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

do latim,
desgaste.
substantivo masculino. oito letras, três vogais, cinco consoantes.
três sílabas.
des-gas-te.
de gastar.
corroer.
pouco a pouco, consumir pelo atrito.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Eu quero escorregar num passo de desequilíbrio enquanto danço.
Eu quero aprender essa coreografia: passo, descompasso, passo, descompasso.

terça-feira, 26 de março de 2013

"Você é ninguém?" Eu sou. "Você é ninguém?" Eu não. "Você é ninguém?" Sou eu.
Ei, sou eu.
Ninguém.

Se eu te pedir, você corre pro teatro comigo? Ando transbordando todas essas minhas sensibilidades, mas, vê se você acredita, olha isso: eu não consigo chorar.
Só no teatro consigo chorar. E preciso tanto.
Você corre pro palco comigo? Só no palco consigo ser. Eu. Ninguém.
Consigo ser e chorar, quando tem palco. Quando tem eu.

Nesse final de semana senti saudades de alguém.
Nesse final de semana me perdi nos sentimentos de alguém. Não soube distinguir. Não soube entender.
Nesse final de semana te esqueci de ser.
Nesse final de semana me esqueci de ser.
Senti saudades de mim.
Me perdi em mim.
Não soube distinguir, entender, ser.
Nesse final de semana fui ao teatro.
E chorei.

O chão, as tintas, os trapos, as letras de música, a argila, a dança, os corpos, os rabiscos, os gritos, os beijos, os chorinhos, as coincidências, o papelão, os papelões.
O balde de água.

O feno, o chão, o vazio, o sujo, a busca, a e-xis-tên-cia. O papel-papelão.
"Vi alguém privado de sentimentos, nulo, sozinho (...), era esticado e leve, era rosado, e não sentia absolutamente nada, um dia na praia começou a correr em direção ao mar, mergulhou, e nunca mais emergiu, eu vi quando se fez em curva e apontou a cabeça para as águas, vi dorso, nuca, brilhos, brilhos na cabeça, pensei: estranho, moveu-se como quem sentiu".

Teatro amassa a gente. Espreme até escorrer sentido, ainda que em uma lágrima só, só.

Mas ninguém viu.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Aqui o céu é todo aberto, que nem naqueles campos de flores que tem em filme europeu. Aqui tem flores também, mas são menos expostas, e de cores menos vivas. Aqui dentro, a gente não respira. Não tem fio elétrico, proteção.

Do lado de cá, a areia cresce e corre entredentes, entre o vento. Metade de mim quer ir embora correndo. Metade de mim quer ficar pra observar os raminhos amarelos que crescem por entre as raízes insólitas do lado de lá.

É um lugar todo cheio de vazio. De nublado, de frio. De santo desgastado, de vaso quebrado, de planta pálida invadindo pedra gasta. De baixo, uma energia imensurável, emanando ar quente de uma não-respiração. Me pergunto se são suspiros, lamentações ou só desabafo de alma-sem-corpo, manifestando sua essência-existência-esquecida.

Nesse piso disforme tem calor.

Tem que ter grana pra chegar digno nessa periferia de esperança e indiferença. Tanto na ala dos túmulos-de-mármore quanto na dos buracos-com-montes-de-terra. Eu costumava achar que era tudo fechadinho, trancadinho, mesmo quando mal cuidado. Mas não. Tem flor seca, casinha de pedra abandonada, voz falha, capela arrombada.

Será que roubaram meu corpo?