"- Você já amou pela beleza do gesto? Você já mordeu a maçã com todos os dentes - pelo sabor da fruta, sua doçura e seu gosto? Você já se perdeu muitas vezes?
- Sim, eu já amei pela beleza do gesto, mas a maçã era dura e eu quebrei os dentes. Essas paixões imaturas, esses amores indigestos, deixaram-me mal disposto muitas vezes.
- Mas os amores que duram tornam os amantes exaustos - e os beijos deles, maduros demais, apodrecem-nos a língua.
- Os amores passageiros têm fébres fúteis. E os seus beijos, verdes demais, esfolam-nos os lábios. Porque ao querer amar pela beleza do gesto, o verme da maçã escorrega-nos pelos dentes, nos quebra o coração, o cérebro e o resto, e esvazia-nos lentamente.
- Mas, quando ousamos amar pela beleza do gesto, esse verme da maçã, que nos escorrega entre os dentes, toca-nos o coração, o cérebro e o resto, e deixa-nos o seu perfume dentro.
- Os amores passageiros fazem esforços inúteis, suas carícias efêmeras cansam-nos o corpo.
- Os amores que duram tornam os amantes menos belos, as suas carícias usadas dão cabo de nós."
As-tu déjà aimé - Les chansons d'amour
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
É proibido estudar
As ruas do Vale do Swat permanecem caladas, envoltas sobre névoa e silêncio acinzentados enquanto Malala respira errado num hospital britânico.
Malala é toda errada. Assim como seu pai. Assim, como nasceu. Assim como meninas paquistanenses, assim como ela. Malala Yousufzai tem os ossos danificados e alguns olhos - finalmente - voltados para os seus. Iniciada a oscilante guerra dentro de si - os ossos estalando contra os olhos piscando - permanecer acordada lhe proporciona a paz de um teto liso, enquanto seu próprio caos ecoa na rotina seca do Paquistão.
Nesse momento, o que pensa Malala?
Um blog e um codinome transmitidos mundialmente pela BBC formam o grito politizado que escorre incessante dos dedos de uma estudante (uma O QUÊ?) de catorze anos. Escorria; até o dia do ataque. "Merecia morrer", diz a nota emitida pelos integrantes do Talibã, responsáveis pela guerra contra a possibilidade de meninas frequentarem a escola no país; responsáveis pelo tiro que rasgou o ar para atravessar rasgando a cabeça de Malala. Por sorte, a bala serenou, alojando-se em seu pescoço. Irresponsáveis.
Nesse momento, como pensa Malala?
O país protesta contra a tentativa de assassinato. A Al Qaeda protesta contra a falha. O Talibã protesta em nome de Sharia, lei islâmica que diz que "até uma criança pode ser morta se estiver propagando contra o Islã". Pessoas de todo o mundo "conscientizam-se" e protestam, entre o intervalo da novela e o filé de frango, contra o-mundo-perdido-em-que-vivemos.
Nesse momento, por o que protesta Malala?
.
(Em homenagem à menina Malala, que recebeu hoje alta do hospital, após 4 meses de internação e cirurgia bem-sucedida no crânio. Texto escrito em outubro de 2012) .
Malala é toda errada. Assim como seu pai. Assim, como nasceu. Assim como meninas paquistanenses, assim como ela. Malala Yousufzai tem os ossos danificados e alguns olhos - finalmente - voltados para os seus. Iniciada a oscilante guerra dentro de si - os ossos estalando contra os olhos piscando - permanecer acordada lhe proporciona a paz de um teto liso, enquanto seu próprio caos ecoa na rotina seca do Paquistão.
Nesse momento, o que pensa Malala?
Um blog e um codinome transmitidos mundialmente pela BBC formam o grito politizado que escorre incessante dos dedos de uma estudante (uma O QUÊ?) de catorze anos. Escorria; até o dia do ataque. "Merecia morrer", diz a nota emitida pelos integrantes do Talibã, responsáveis pela guerra contra a possibilidade de meninas frequentarem a escola no país; responsáveis pelo tiro que rasgou o ar para atravessar rasgando a cabeça de Malala. Por sorte, a bala serenou, alojando-se em seu pescoço. Irresponsáveis.
Nesse momento, como pensa Malala?
O país protesta contra a tentativa de assassinato. A Al Qaeda protesta contra a falha. O Talibã protesta em nome de Sharia, lei islâmica que diz que "até uma criança pode ser morta se estiver propagando contra o Islã". Pessoas de todo o mundo "conscientizam-se" e protestam, entre o intervalo da novela e o filé de frango, contra o-mundo-perdido-em-que-vivemos.
Nesse momento, por o que protesta Malala?
.
(Em homenagem à menina Malala, que recebeu hoje alta do hospital, após 4 meses de internação e cirurgia bem-sucedida no crânio. Texto escrito em outubro de 2012) .
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Amarelo. Um olhar caído. O corpo inchado. Um novo corpo - interno. Um novo nódulo, pra agravar o machucado. Uma bateria de exames e uma vontade imensa de te levantar. Um sorriso murcho, tão amarelo quanto seus olhos. O seu abraço, as nossas lembranças, deitados na cama, olhando prum teto mais rachado que nossos dedos secos. Minha mão quente, a sua fria. Nossos cérebros difusos - ambos aqui, e ambos aflitos. Quero te pedir pra ficar. Quero te pedir pra sempre me pedir, sem vergonha, pra ajustar o despertador nos horários dos remédios. Quero te pedir pra me contar mais um milhão de vezes todas as nossas um milhão de histórias. Não me importo de ouvir, mais uma vez, sobre quando líamos os sabores de suco ao contrário, na padaria, depois de comprarmos uns três gibis da Mônica e o nosso Cornetto de praxe. Nem de quando eu te descrevi como "um cara bochechudo, que nem eu", pra inspetora do Sesc, quando achei que tivesse te perdido, atrás dos cartazes da exposição. Nem da vez em que fomos pra Peruíbe e você gastou a vida com uma caldeirada e eu implorei por uma lasanha congelada. Nem de quando o gás vazou e os bombeiros invadiram o apartamento de vocês poucas horas antes de eu nascer. Ou das vezes em que descíamos aquela ladeira comprida, enorme, e eu virava de ponta da cabeça, colocando os pés em cima do porta-malas. Ou da vez em que você pagou um sorvete pro meu amigo japonês que, é claro, não pôde deixar de dizer o quanto você era legal por isso. Eu quero te encontrar de óculos escuros no seu carro velho ali na Vila Mariana e quero que você me leve pra comer mais um milhão de vezes naquela nossa "casa boa de esfiha". Eu quero que a gente vá no Central Plaza lembrar da época em que tinha cama elástica e assistir qualquer filme bobo no Cinemark. Eu quero te ouvir cantando e relembrando as vezes em que dançávamos naquela sala vazia, gelada. Hoje, ela parece muito menor - e muito mais vazia, já que você pouco desce. Eu quero, ainda, que você me conte sobre essa (nossa) família complicada. Quero entender cada pedaço que nunca me coube sequer saber. E eu quero que você me ligue em horários variados, enquanto eu estiver no trabalho-na-lanchonete-no-bar-na-casa-de-alguém, porque eu vou te atender. Eu quero clarear seus olhos, seus órgãos, sua cabeça, seu coração. Quero arrancar fora minha fragilidade, te apertar forte, perto de mim, e te passar toda a força do mundo. Quero conseguir te mostrar tudo isso, e tudo mais que eu quero, de carinho, de energia e de gratidão.
Quero que a realidade vire, distorça, mude. Quero corrompê-la. Quero criar uma bolha pra te proteger, e me enfiar dentro dela, junto com você, pra fugirmos de todo o angustiante, incerto e rasgante que sustenta esse momento.
Quero que a realidade vire, distorça, mude. Quero corrompê-la. Quero criar uma bolha pra te proteger, e me enfiar dentro dela, junto com você, pra fugirmos de todo o angustiante, incerto e rasgante que sustenta esse momento.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Sobre precauções
- Por que não pula pra lá?
- Ah, não, eu sempre sento nesse aqui, do lado de fora.
- Não gosta de olhar a vista pela janela?
- Gosto, claro, claro, mas é que estou sempre pra descer.
- Mas e se a pessoa do lado precisar descer antes?
- Aí eu viro pro lado e dou passagem, ué. É bastante simples.
- Mas se você, tanto quanto a outra pessoa, podem descer a qualquer momento, por que não escolher a janelinha?
- Ah, é muito mais difícil pra sair daqui quando se senta na janela. Além de não me distrair, correndo o risco de perder o ponto, sentando aqui eu não preciso pedir licença, atrapalhar, pedir desculpa e ainda descer toda torta, esbarrando em tudo. Tem risco até de cair, nesse chacoalho todo do ônibus.
- Mas aí fica olhando pro nada? Perde qualquer detalhe bonito que possa passar?
- Prefiro ficar aqui. Antes ficar aqui e não ter problema. Não tem problema, estou sempre pra descer, de qualquer forma.
- Ah, não, eu sempre sento nesse aqui, do lado de fora.
- Não gosta de olhar a vista pela janela?
- Gosto, claro, claro, mas é que estou sempre pra descer.
- Mas e se a pessoa do lado precisar descer antes?
- Aí eu viro pro lado e dou passagem, ué. É bastante simples.
- Mas se você, tanto quanto a outra pessoa, podem descer a qualquer momento, por que não escolher a janelinha?
- Ah, é muito mais difícil pra sair daqui quando se senta na janela. Além de não me distrair, correndo o risco de perder o ponto, sentando aqui eu não preciso pedir licença, atrapalhar, pedir desculpa e ainda descer toda torta, esbarrando em tudo. Tem risco até de cair, nesse chacoalho todo do ônibus.
- Mas aí fica olhando pro nada? Perde qualquer detalhe bonito que possa passar?
- Prefiro ficar aqui. Antes ficar aqui e não ter problema. Não tem problema, estou sempre pra descer, de qualquer forma.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Eu já não lembrava como uma colisão de tantas ruínas, juntas, seria capaz de adentrar no mais íntimo-profundo-obscuro de todos os órgãos do corpo, no meio da noite. A madrugada cruel, fazendo careta no meu quarto; as falas, as falas, as falas correndo loucas no pensamento presente - impotente - à parte de qualquer cumplicidade.
"Tens uma máscara, amor, violenta e lívida, te olhar é adentrar-se na vertigem do nada, iremos juntos num todo lacunoso se o teu silêncio se fizer o meu, por isso falo falo, para te exorcizar, por isso trabalho com as palavras, também para me exorcizar a mim, quebram-se os duros dos abismos, um nascível irrompe nessa molhadura de fonemas, sílabas, um nascível de luz, ausente de angústia. melhor calar quando teu nome é paixão". Hilda Hilst
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
simples cidade, minha
Peso e leveza disputam constantemente pela minha atenção - mas o equilíbrio me chama e me puxa, todo completo, por ser meu, tão somente meu, exato e disléxico.
Minhas crises não vão passar, eu sei. Que vou deitar e que vai ainda pesar. Que vou continuar submersa em medo-vergonha-ansiedade-angústia-desespero. Nessa ou naquela manhã, nesse ou naquele meio de tarde. Mas que fica tudo bem.
Que fica tudo bem, por hoje, sempre fica tudo bem, por aqui, porque eu ainda posso fugir do trabalho no começo da noite e ver que existe claridade do lado de fora da redação; pular umas ruas até a Santos e tomar um chocolate quente da Kopenhagen com dupla dose de chantilly.
Mais do que posso, eu quero. E assim, por querer, não mascaro minhas angústias. Eu só me deixo viver, dançando desajeitada sobre o pesado que me carrega os dias.
Um cheiro de escola antiga, daquela minha região de saudade, toda desbotada. A sensação ansiosa de pular o último degrau da escada sem tropeçar, e fazer o mesmo quando acaba a rampa de correr da linha amarela do metrô, na adrenalina nervosa de não cair. Cruzar a banquinha da Frei esperando que alguém apareça. Ter o sorriso colado no sorriso de alguém. Relembrar as vezes em que corríamos juntos naquele monte de grama, antes de ele me fazer voar no balanço. Ter o vento das dez da noite atravessando a manga do meu moletom e ter o tempo tomado por uma conversa sobre os astros, os mundos e os pontos de vista de cada um. Dois copos cheios, algumas filosofias furadas, algumas muitas risadas. Esses tipos de coisa, que fazem feliz.
Eu sou feliz.
Sou feliz porque me deixo: vivo exposta à minha complexidade, que gosto tanto, respirando cada momento que consigo - que me esforço para - tornar simples. Que gosto do simples, também.
Minhas crises não vão passar, eu sei. Que vou deitar e que vai ainda pesar. Que vou continuar submersa em medo-vergonha-ansiedade-angústia-desespero. Nessa ou naquela manhã, nesse ou naquele meio de tarde. Mas que fica tudo bem.
Que fica tudo bem, por hoje, sempre fica tudo bem, por aqui, porque eu ainda posso fugir do trabalho no começo da noite e ver que existe claridade do lado de fora da redação; pular umas ruas até a Santos e tomar um chocolate quente da Kopenhagen com dupla dose de chantilly.
Mais do que posso, eu quero. E assim, por querer, não mascaro minhas angústias. Eu só me deixo viver, dançando desajeitada sobre o pesado que me carrega os dias.
Um cheiro de escola antiga, daquela minha região de saudade, toda desbotada. A sensação ansiosa de pular o último degrau da escada sem tropeçar, e fazer o mesmo quando acaba a rampa de correr da linha amarela do metrô, na adrenalina nervosa de não cair. Cruzar a banquinha da Frei esperando que alguém apareça. Ter o sorriso colado no sorriso de alguém. Relembrar as vezes em que corríamos juntos naquele monte de grama, antes de ele me fazer voar no balanço. Ter o vento das dez da noite atravessando a manga do meu moletom e ter o tempo tomado por uma conversa sobre os astros, os mundos e os pontos de vista de cada um. Dois copos cheios, algumas filosofias furadas, algumas muitas risadas. Esses tipos de coisa, que fazem feliz.
Eu sou feliz.
Sou feliz porque me deixo: vivo exposta à minha complexidade, que gosto tanto, respirando cada momento que consigo - que me esforço para - tornar simples. Que gosto do simples, também.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
"Ele alongou ainda mais o braço. O corpo acompanhava, num esforço tão grande e lento que precisou tirar uma das pernas do chão. Estendeu-a no ar, equilibrando-se a princípio precário sobre a outra, depois mais e mais seguro, enquanto o braço estendido, o tronco alongado e a perna suspensa formavam uma linha quase perfeitamente horizontal. O rosto agora tinha uma expressão de prazer. Ou de expectativa de prazer. À beira da alegria, o rosto. O que quer que estivesse no limite dos dedos, pensou o outro, estava para ser tocado no próximo segundo. E não conseguiu evitar certa tensão ao olhar fixo, meio hipnotizado, os cinco dedos excessivamente entreabertos. Tanto que - de onde estava, podia ver - os ossos nas costas da mão dele se faziam mais salientes. Nascendo do pulso, um feixe de cinco ossos finos, nervosos. Sem querer desejou que, fosse o que fosse, ali, guardado no ar, à espera do toque, entre as paredes brancas, os dedos encontrassem logo o objeto. Que se fechassem definitivos sobre eles numa espécie de posse, para alívio dos dois".
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