quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Contato

"Somos tão subordinados, por acaso estamos de mãos dadas sem nos conhecer"

Estar sozinha ou rodeada de muita gente em um trem não tem diferença. Ninguém prefere que haja mais um corpo ali.
Não que as queiram mal, eu digo, as pessoas, não as querem mal, não é isso. Apenas esperam que esta ou aquela logo se levante para sentar em seu lugar.
A verdade é que a verdadeira caridade da 'bonita ação para com o outro' não existe, a menos que a verossimilhança esteja como estampa nas caras feias dos demais, coitados, sentados ao lado, julgando todos os 'maus atos', e as 'más vontades', e as 'faltas de ética' que ali se procedem.
Como quando a questão que pára os olhares de todo o vagão é a que envolve ceder o assento àquela senhorinha cheia de sacolas, e tão bondosa.
Diferente de todo o resto dos intrometidos ensaiados.

"Todo dia enfileirados em ordem decrescente de importância social"

O segundo, o da noite passada, cada vez mais remoto.
O terceiro se esvaindo, num desgaste diário de horas contadas e dias curtos.
Alimentando e finalizando a cadeia daqueles mais de quinze carimbados, fotografados e entulhados carinhosamente em uma caixa de sapatos encapada com recortes amarelos, que dão a ela um certo tom nostálgico.
É o tão falado "Começo Do Fim", chegando agora, em passos rápidos.

"Sábios são aqueles que se encontram fora de alcance, preferiram simplesmente se ausentar"

Através de números e truques sortidos, a cor parece vagarosamente voltar para dentro do corpo. E mais que isso.
Até então, inconfessável gesto, mas, é verdade, minhas próprias íris, minhas próprias pupilas, que falam por si, elas não me enganam, nunca me enganam. Nunca me enganaram.

Digo então que te quero bem.
Quero-nos bem, é isso.

"Não se precipite, neste precipício todos vão cair.
Nós não temos medo de cair".

uma idealização.

O tênis vermelho esfarrapado, a camiseta relatando em letras grandes a grande cidade de Nova Iorque. Os braços de veias saltadas terminavam com um grosso livro nas mãos.

- Bonitos óculos. - Ela disse ao menino, ainda a analisá-lo.
- Obrigado.
- O que você está lendo?
- Nietzsche. - e levantou o livro na altura do rosto
A menina sorriu, deslumbrada.
- Estou apaixonada. - E entregou-lhe um post-it com o número do telefone.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Gotas verdes cor de mel.
Respingando ao som do ventilador.
Lá do alto da roda gigante.

Fale olhando em meus olhos.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Ilustríssimo texto pobre

Interesse plastificado, um retrato mal colocado, mal colado, torto.

Gostaria de ter as palavras certas nas horas certas, e só isso - mas essas minhas já velhas conhecidas fazem questão de brincar, soltas e pobres, nos meus devaneios.

Me surgem de um ímpeto até hoje desconhecido, e rolam aleatórias formando um contexto aceitável, em olhos alheios que, na verdade, nada sabem, nada entendem.
Mas é assim que acontecem, e aparecem quando bem querem. Criam seus shows improvisados e recebem daqueles que as assistem, com prazer, os seus sinceros aplausos superficiais - embora de tamanho valor para um ego maltratado como o meu.

Então, por agora, me digam. Me mostrem, me impulsionem a um algo de fato desconhecido, tudo bem, talvez não tão desconhecido assim, mas singular, na maneira em que é único por si, um fato conhecido, mas novo, de uma outra forma, de outras características, de outros sentimentos.

Sentimentos... Como eu, eu própria, poderia falar deles? Nem ao menos sei o que me surge oscilando de dia em dia, por dentro, por fora, não sei!
E nem me atrevo a tentar saber, sobre os meus, sobre os seus, sobre os deles, tamanha frustração qual não receberia...!

E em períodos longos demais - já diria a corretora - me perco outra vez, na mão pelas mesmas de sempre, essas mesmas ingratas de que tanto falo, e que tanto comigo faltam, em momentos como hoje, em momentos como sempre.
O ideal em suas férias integrais.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ópera de Machado

Começo assim, como começaria em qualquer palco, uma peça ao público, sem cortinas, sem sapatos, sem receios. Somente as meias.

Um salto em direção à platéia, aos desconhecidos, aos amantes, aos queridos, aos críticos e ressentidos, aos tantos e tantos, em cantos, em solos, sozinhos, calados, à espera. Envoltos em uma expectativa, uma qualquer, uma expectativa, sem perceber, de qualquer beleza, de qualquer sujeira, de qualquer ruído, de qualquer, de.
Uma expectativa de.

E entre relógios barulhentos pernas inquietas suspiros mal contidos bocejos óculos sendo postos em-seus-devidos-lugares papéis de bala garrafas de plástico esmagadas pigarros espirros mordidas suor, forma-se a pausa - em meio à abdicação dos ponteiros e a respiração que se prende.
No fim, que é o começo, é tudo som, luz e brilho.

Um correr silencioso sem marcações, um leque de cores, em meio à dança, aos vestidos volumosos, ao efeito da luz que quase cega, para depois abaixar-se, reduzir-se a um pálido cômodo, que intimida, que relaxa, que faz pulsar os músculos e os olhos, em meio à vibração, às cores fortes, às pálidas, à interação de cada gesto, de cada fala, de cada sopro.
O lirismo do momento.

Por toda a noite quase nem sentida, por todo o espaço. A música, a literatura e o teatro, juntos em uma só voz. Em um só corpo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sobre 29/09 (e mais tantos outros dias)

Toda grande alegria vem seguida de um grande chute na cara. E tenho dito.
Assim mesmo, como frase de efeito, como clichê. Como verdade provada e reprovada por mim mesma.

Há uma hora, eu estava repleta da mais verdadeira vontade de escrever sobre tudo o que me parece bonito, falar sobre detalhes de cor e de pele, de momentos únicos, íntimos, felizes, completos - por todo o intervalo de tempo, aparentemente minúsculo, em que ocorrem.
E então me ocorreu a percepção da minha talvez-até-demais felicidade progressiva, da minha redenção-ingênua-e-repetida àquelas palavras cuja origem me era proibida de sentir há um tempo (um voto de proibição de mim para mim).
Uma junção de sentimentos em uma mistura muito rápida, deslizante e quase incontrolável, de brilho, clareza e tranquilidade.
Uma daquelas definições que nunca sai perfeita, já que é abstrata, e, se me permite usar mais uma vez um outro clichê, indefinível.
Talvez tenha se formado, dentro de mim, essa ilusão de que todo o lixo, antes (durante e depois) amontoado no canto do quarto houvesse de fato sumido, se transformado, sublimado (!), devido a esses minimicro efêmeros momentos, especialistas em deixar a realidade para mais tarde.

E agora, aqui estou, em mais um papel molhado de linhas rabiscadas onde o assunto principal não passa do mesmo de tantos dessas tantas páginas: Minha angústia, meu desespero, minha queda.

Algumas pernas colocadas à minha frente, para que me aconteça tropeçar e enfim acordar, de novo e de novo - o quanto for necessário, por todas as vezes que estiver indo longe demais. Longe demais do foco, me rendendo ao surreal inventado, elevado e multiplicado. Pois que seja assim estabelecido, mas que eu não me deixe esquecer uma esperança ínfima que ainda existe dentro de mim: a que almeja que esse assim decretado ciclo não prossiga para todo o sempre, e amém.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

"Geração café e cigarros"

"Haviam chegado a um ponto em que verbalizar morcegos poderia arruinar tudo, mesmo que nada houvesse a ser arruinado. Mesmo que sequer houvesse morcegos."

É o que se pode esperar de um feriado cinza como esse. Terça feira, veja só, e com cara de domingo. Um domingo amargo, mais que café, mais que cigarro. Durou pouco.

Tudo culpa da cor. Um domingo cinza assim, e uma fotografia tão colorida, pra quebrar toda a moldura. Dessa vez, não escorreu só pelas paredes.

Como pode, me diga então, como pôde? Viver assim, num passado de "espinhos pra enganar o coração". É de minha índole, é sim, e assumo o que vier de reclamação.

Sei que conhece essa música: É longa, rasgante até. A tenho ouvido há alguns dias indefinidos, embora a tenha conhecido depois, é verdade. Pena não ter dado tempo - pena não ter sido eu quem lhe batia à porta para mostrá-la.

Hoje esvaziei mais um daqueles meus muitos frascos guardados de saliva. É que são tantos, que têm dias que o acúmulo me obriga a quebrar com força no chão algum mais sensível.

Sentimentalismo. Isso sim é que é uma merda.
"Ela é mais sentimental que eu, então fica bem se eu sofro um pouco mais".

Que se afundem os sentimentais. Sentimento sem açúcar, gosto de estragado.
Que se afundem, mais que eu, nesses copos sujos de água e limão, pra passar a ânsia - e formar mais um frasco pra aumentar a coleção.
.

"Entre duas palavras quaisquer, era capaz de deter-se para tomar providências objetivas, tipo esvaziar cinzeiros trocar discos servir bebidas abrir janelas para fechá-las em seguida, rápido, para que os morcegos não entrassem."

sábado, 4 de setembro de 2010

- Não gosto de pessoas assim. Não gosto de gente que pinta o cabelo de roxo, nem de gente que se pinta de cinismo. Essa é que é a verdade, te digo, as pessoas me irritam, não gosto de pessoas assim.

...

- Você está calado, fale comigo, o que acha?

- Eu não gosto de alface.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"então eu lhe pergunto sobre o amor, ele me é franco:
me mostra um verso manco
de um caderno em branco
que já se fechou."