sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Franqueza

Bonito. Tudo belo, bonito. Parece claro, sutil, limpo. Acima de tudo, limpo.
Envolta em tamanha bolha invisível, superficial e ilusória. Lembra até um comprimido, em alguns casos. O caos vem depois que o tempo passa, é o que dizem.

Teria mais cor se todos percebessem tal clareza? Seria mais certo, mais palpável?
Curiosa a forma como concordamos quando estamos na situação. Ao vivenciar fascinante deslumbre, como se tudo o que se visse, fosse azul; como se tudo o que se sentisse, fosse alegre; como se tudo o que se segurasse, fosse eterno.

E T E R N O.
de alguma forma, subjetiva palavra. Afinal, qual a grandeza em que se destaca?
Eterno 'para sempre'. Eterno em uma vida. Eterno por uma semana.

Ao sair da bolha, vire à esquerda e desconfie da eternidade.
Vire à direita e indague o concreto.
Vire do avesso e perceba a limpidez.

Limpidez essa, existente apenas na água corrente que impulsiona o comprimido para dentro do corpo. Daí nascerá a bolha interna.
Alimente-a diariamente, e ela logo crescerá.

domingo, 22 de novembro de 2009

Corto, recorto, pinto com carvão. Suo tinta guache. Acendo todos os fósforos. Espalho cloro na sala. Cândida nos tapetes. Mordo fronhas já furadas. Leio remédios. Nada.

Grau

Não vejo a chuva, não vejo a guia, não vejo o vento.
A noite, hoje em dia, desconhecida qualquer.
Não vejo o breu, não vejo a lua, não prego o olho.

Martelo. Martelo, martelo. Não explico o motivo de fazê-lo, mas faço. Subjulgo, depois esqueço.
Esqueço, rabisco, esqueço. E volto a martelar.

Não vejo o cinza, não vejo as chaves, não vejo a neve. Nunca vi, só imaginei - O que todos os pensantes fariam em meu lugar. Imaginação, por um correr de horas. Um correr de dias, na verdade. Imaginação, e só isso.
Me pergunto, às vezes, se é real... E agradeço por não ser.
Talvez eu queira mesmo demais, chore demais, busque demais. E depois perde-se a graça.
Não vejo graça, não vejo mentira. E olha que já me calaram a boca por hoje... os olhos e a boca.
Pena que o silêncio não me convém.
Pena que o silêncio não me conviva.
Está tudo meio quieto, calmo demais, por hoje. Que bom que existe vida, ainda que fora de mim.

Não vejo as mãos, não vejos as pálpebras, não vejo os mares.
Só ouço onda e voz. Onda e voz, se sobrepondo cada vez mais depressa. Mais alto. Mais surdo.

Não vejo o ar. Não vejo fora, não vejo dentro.
Esguio-me, escapo, escorro.
Afinal, que há com essas paredes?
Quero derrubá-las então, reconstruí-las com meus dedos. Manchá-las com minhas cores. Erguê-las com meu perfume.

Não vejo o sebo. Não vejo força. Não vejo o ralo.
Verde, laranja, verde, preto, verde, vermelho. Por todos os cômodos.
Não vejo o verde.
Não vejo o risco.
Não vejo cera.

Não vejo dor. Não vejo febre, calor.
Estão todos a muitos gritos por hoje. E ainda assim não vejo as trilhas, os fundos, a pausa.
Ouço as vozes e acredito nos berros.
Vejo os berros.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Um quarto de hora

Um copo de água cheio.
Um grito, calado no peito.
O tempo, mais que sóbrio, lento.
Recesso, acesso, alento.

A flor, a cor, o campo.
A noite, a corte, o manto.

E mais duas peles absorvidas
Uma quente, outra fria
Outra fria, uma quente,
e assim sucessivamente.
Até restar apenas o momento,
o presente.

Sem pele, sem cor, mas cheio.
Como o primeiro copo, mais três.

E a percepção da sobriedade relativa.
E a comunicação, a vontade, a cretina:
A saudade, aplicada com morfina.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ponto de fusão

Olhei mais uma vez para suas mãos, fechadas em punho, o que sem dúvida alguma me intimidava. Forcei um sorriso constrangido, mas sentia-me asfixiada demais para demonstrar a cena sutil que pretendia.
Naquele momento, me senti guardada em um pote vazio de vidro com pouco ar. Guardada em um pote de vidro, tampado, para mais tarde.

-Se apresse, limpe logo esse rosto, menina. Suja assim não é bonito andar na rua. Ora, não precisa se envergonhar, todos nós precisamos de guardanapos às vezes. - e me entregou um pacote deles.

Podia sentir o vermelho tomar posse de minha face. Deslizei um guardanapo pelo rosto e quis vomitar.
Toda aquela dissimulação estava me enojando, mas o que eu podia fazer? Era mais um de tantos outros treinos para o espetáculo que logo se seguiria.

Ele me entregou meus braços e pernas e logo os guardei na bolsa. Saiu em passos rápidos, ainda como quem aperta o ar entre os dedos.
Segurei com força minhas têmporas, com medo de que caíssem, e o segui.
Tentei alcançá-lo, mas agora ele corria, quase como se fugisse de mim.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

em (re)construção

As frutas estavam frescas, e estavam enfeitando a mesa. É, estavam sobre a mesa e, janela afora, o sol pairava no alto, no topo do céu, embora quase alcançável com as mãos, quase trazido aqui, até o chão.
Bem alto. E bem perto.

Em dois cortes transversais, arranca-se a epiderme. Com algumas perfurações, alcança-se o osso. E sente-se fácil, por entre a ternura dos rasgos gelados, toda a fervura que pinga no assoalho. Bem assim, como receita de bolo. O ruim é ter que comê-lo após o prazo de validade. Ruim também é esse tira-manchas, nada eficiente - sempre deixa a desejar com esses resíduos opacos que permanecem. É preferível lavar de uma vez as mãos.

Enxuguei alguns pedaços de pano, ontem. Depois os torci. E torci para que logo secassem.
Choveu mais cedo do que o previsto, outra vez, e lá se foi todo o trabalho da secura. Inundou toda a varanda, e a garganta. Era visível o corante que escorria dos hematomas, rente à pele.

As frutas continuavam enfeitando a mesa. Hoje estavam secas, em sintonia com os raios a iluminar o céu, agora escuro, ressaltado pelas ondas do som dos trovões. Mas eram vistos no alto, no topo do céu.
Bem alto.
E bem perto.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Um dia perdido entre papéis amarelos.

Foi rodando, rodando rápido, rodando a cabeça, os olhos, os atos.

Levantei e cai, levantei e cai.

Subi e desci, subi!
E desci.

Minhas pernas não paravam de gritar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Certeza

Era uma vez em que era incerto afirmar. Os lábios secos pela nova doçura não passavam de lábios secos. E lá estava ela, mascando limões como quem come açúcar, esperando o trem passar.

Dizia-me que era só questão de tempo, que logo ele já partiria. Se esvairia em meio à multidão abstrata, para correr, por fim, despercebido, como se jamais houvesse parado naquela estação.
Insistiu tanto que iria passar, que passou.
Passou um dia, correu um mês, voou um ano. E todos os atrasos e ponteiros perderam-se em meio as tantas caligrafias escorridas pelas folhas.

Curiosa foi a forma como, ao perceber-se misturada perante os tantos líquidos que vivera, começou a lidar com os ventos de norte a sul. E como ascendiu de maneira rápida - ou talvez não tão rápida - ao cinza aceitável, esquecendo aquele outro, mofado e sufocante, a que se dera ao luxo de absorver, por tempo até demais. E então abdicou ao tempo.

Disse-me, assim, que se permitiu enxergar cada cor com sua devida energia, que passou a mesclar por todas as paredes de seu cinza instável.
Era muito, em pouco. Muito em pouco tempo.
Pendurou-se então num impulso certeiro pelas horas, pelos inválidos (e válidos) momentos que corriam sem sua percepção.

E já eram várias vezes.
Mas agora havia a diferença.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Aurora

Confesso que precisei de dois ou três jatos de água fria na face para acordar do transe entorpecente por completo. Tudo ainda me parecia de um real absoluto, confundido com a abstração daquelas vozes e expressões indecifráveis a olhos e ouvidos distraídos, assim como todas aquelas cores em uma mistura ilusionista, parecendo querer me engolir de uma vez só, me devorar, me absorver e me deixar nesse estado fora de foco, em uma sensação de massa sovada e experimentada, prestes a enfrentar o forno e sua temida boca de calor artificial.

Pensei que jamais fosse me sentir com tamanho enjôo após o resultado do vermelho que gritava meu nome, fundido com o verde ao sol dos olhos cor de mel de alguém, e até com o amarelo vivo, como gema de ovo, naqueles trapos na vitrine, seguido pelo azul que adentrava pelo fim de meu corpo em busca de qualquer resíduo de consciência, migalhas.

Pensei em desativar todos os botões, de uma só vez, sem pesar, e nem pensar. Depois, em algum momento, reativariam-se naturalmente as diversas partes e peças sobreviventes, com mais cuidado e atenção, aproveitando também a época de arrancar as flores mortas e replantar novas mudas cegas. Ou semi-cegas.
Isso existe?

A questão principal, e que mais me fez ranger os dentes, foi a busca incessante, e no fim, frustrante, por meus sapatos. Procurei por toda parte, até mesmo - acredite - embaixo dos papéis amassados e empoeirados. Não os achei. Então foi preciso estender as camisetas molhadas e sentir novamente o vento ríspido e gelado tocar meu rosto e colar minha roupa ao corpo, com a mesma delicadeza de um rebanho de búfalos a correr por medo da chuva.
Búfalos temem a chuva?
Talvez não tanto quanto eu.

Corri para o gramado e deitei, vagando minha subjetividade pelos vales da imaginação e da indagação automática: "Como seria se as ilógicas e mágicas cores não tivessem aparecido em meu sonho?"
Sonho?
Respirei todos os materias de construção da reforma da rua de dentro e aspirei, inclusive, toda a tinta que escorria pelas desinteressadas paredes há tempos já manchadas.
Levantei-me e corri para o casarão branco cujas vidraças verde-claras sorriam para mim. Pareceu-me convidativo, até demais.
Gritei para a neblina, e desejei a ruptura daquela névoa imediatamente. Joguei fora meus trezentos suplementos diários - todos aprisionantes e desgastantes demais, para tão bonito lugar - e entrei.
Esperei por algum conhecido até acabar-me nas perdidas horas.
Não me permito falar com estranhos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Ladrilhos

Sem um sentido, um abrigo, uma capa contra a chuva, um menino, pela rua, o semáforo e a lua; Vem no brilho, vem depressa, corre e esbarra, uma fresta, que se fecha, se enrosca, se interessa, mas se posta. Vem pulando, vem passando, corroendo, se perdendo, num embalo, num momento, cerra os olhos, o alento, que se ofega, que acelera, e se move, se orienta, só comove, salienta, e se apega, e se esforça, escorrega, se destroça...
Corre o trem, segue o ritmo, a plataforma, perde os trilhos, chora e implora, submete, e espera pelas sete, sete vezes, sete horas, sete erros, sete horas, sete olhos, sete horas, sete vidas, sete horas.