quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Não suporto extremos.
Me moldo em pedacinhos metálicos de diversos formatos que me carregam, sempre que possível, ao equilíbrio.
Não suporto choro-de-soluçar, mas odeio gargalhada-de-cuspir.
Não suporto o descaso com a euforia, mas odeio as paixonites grudentas.

Não suporto extremos.
Não convivo bem com o "nunca".
Não convivo bem com o "sempre".

E talvez seja por isso que me envolva, sempre, com todos os meus nuncas.
Ou por isso que nunca, em hipótese alguma, desgaste meus pra-sempres.

Imersa em meu meio-termo, subjugo-me extremista como ninguém.
Tenho meus "à flor da pele" mais rasgados que papel sensível.
Tenho meus "arranca-rabos" mais rasgantes que café quente.

Me consumo em debate com cada crítica gritada por mim.
Me transformo de muro inidentificável para vento intransponível.
Acontece que hoje é dia de.
Hoje é dia porque estamos todos nessa mesma região semi-contorcida, lutando por qualquer semelhança, qualquer algo que nos permita fugir do universo ditatorial que nos institui, diariamente, o peso de ter pés alados.
Prazer instantâneo, sordidez e desafio. Nossos seres sustentados por outros corpos, outros copos. Almas viciadas e consequências descon-side-radas.

Nosso meio comum é um gole de seca e nosso ideal consiste em varrer, apenas para nós, todo o líquido; todo o alívio. Alívio esse, constituído pela leveza de ter os pés centrados. Uma emoção corriqueira em troca de uma consciência tranquila. Uma tradição retrógrada, vintage ultrapassada, de gente perdida em meio à própria noção do perder-se.
Necessitamos nomear cada passo. À direita, galocha. À esquerda, chinelo.
Permanecemos em contraste, apáticos, unidos por não pertencer, empáticos, a uma galáxia interligada ao vazio.

Estamos aquém.
A mando de quem?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

"All you can say, eu sei de cor"

Abriu a porta como quem abre um pote com biscoitos velhos. Olhou sem ver, desviou. Olhou rápido, de novo, e apertou a visão até surgirem as ruguinhas de sempre.
Ninguém precisa de óculos quando se tem o recurso das ruguinhas; Viu.

Abriu a porta como quem diz "eu voltei", com saudades.
Me disse: "Eu voltei!".
Me disse: "Estou bem".
Eu disse: "Estamos".

Me olhou com obrigação e me segurou, sustentando o olhar, como se as mãos fossem deslizes.
Me disse: "Não vou ficar".
Eu disse: "Não precisamos".
Me disse: "Eu não vou ficar".
Eu disse: "Não vamos".

Deslizou arrastado até minhas pernas e se ajoelhou como quem pede auxílio.
Primor de culpa, de lamentação, de solidez manchada a cândida, saliva e prazo.

Fez de mim barreira e eu o fiz explosão.
Elástica, me espreguicei.
Num abraço, desmoronamos.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A resistência à qual nos agarramos para respirar sem comprimidos reside na fagulha de sentido que conseguimos criar para cada momento vivido.

O acúmulo de instantes intensos nos permite sobreviver em meio ao caos da rotina.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Escrevo porque estancar a angústia é ainda pior do que senti-la.

domingo, 17 de junho de 2012

Película

Meu problema consiste em ser.
Ser infinita e ser ruminante. O prato feito nunca acaba, e é bonito repetir.

Pode acarretar em uma ou outra perda qualquer, comum: um trem que chegou e não prestará serviço, uma frustração intelectual pós-leitura ou uma fatia de pão mofado. O essencial é que a perda, por si só, esteja acoplada à criação das setecentas e tantas expectativas.
Ruminar o infinito significa nada além de estagnar-se dentro de uma invenção. 

Shoulder to shoulder

Eu quero viver escrevendo sobre meus amantes. Escrever sobre cada detalhe, cada pedacinho daquilo que um dia eles, por vontade própria e única, me mostraram. Gosto do detalhe, das aspas sem contenções. Gosto das sombras, e das sobras mais íntimas que consigo raspar.
Gosto quando o canto da boca ameaça sinceridade em um meio sorriso.
Gosto do puro, do não-ensaiado, do simples e do leigo de qualquer entrega, em sua totalidade.
As pessoas pelas quais tenho maior interesse são as infelizes. Não sei ao certo por quê.
Talvez porque eu considere a exposição de sensibilidade uma das coisas mais bonitas que já vi. A entrega dos pontos, o assumir que é assim e à merda com o orgulho. A exposição do seu próprio ser, cru. 
Sentimentos. Mesmo que os piores, que os rasgantes. Porque mostram o desconforto em relação à significação de cada passo que somos, diariamente, condicionados a arrastar.
Pessoas tristes sentem-se não-pertencentes. Sentem-se alheias a um sistema em que sentir prazer é fundamental, e, mais ainda, obrigatório. Se isolam porque, verdadeiramente, não sentem. E não há remédio-floral-religião-auto-ajuda que vai fazê-los engolir e sorrir, mecânicos.
Só não funciona quando todas as minhas vozes resolvem falar ao mesmo tempo. Entram em colapso dentro de mim. Se uma delas escolhe uma cor, a outra rompe relações. Se uma quer se abrir pro mundo, a outra puxa para trás, com rédeas sintéticas de receio.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sobre uma leveza insustentável

Largar mão daquilo que é de graça, do que vem do lado, de dentro.
O que corrói é de um todo completo, e agrada em peso aos retalhos esgarçados.
Seria, inclusive, de interessante liquidez, não fosse a dificuldade em sustentar-se sobre um só palmo.
Sobre uma só pétala.
Perfeito selvagem, eu diria, aquele que se constrói no raso do contato de um fim de tarde desconcertante.

Análise tipográfica, iconográfica e cefalométrica de uma - muito mais próxima do que distante, embora, ainda, estranha - oficina de idéias. O que lêem as mãos, lêem os olhos, e lêem o receio.
A reafirmação do ser humano como um ser de vísceras e cérebro em constante elasticidade.

Um observar rasteiro diante dos muros sujos do outro lado do pátio.
Só podia ser histeria; jamais amor.