Abriu a porta como quem abre um pote com biscoitos velhos. Olhou sem ver, desviou. Olhou rápido, de novo, e apertou a visão até surgirem as ruguinhas de sempre.
Ninguém precisa de óculos quando se tem o recurso das ruguinhas; Viu.
Abriu a porta como quem diz "eu voltei", com saudades.
Me disse: "Eu voltei!".
Me disse: "Estou bem".
Eu disse: "Estamos".
Me olhou com obrigação e me segurou, sustentando o olhar, como se as mãos fossem deslizes.
Me disse: "Não vou ficar".
Eu disse: "Não precisamos".
Me disse: "Eu não vou ficar".
Eu disse: "Não vamos".
Deslizou arrastado até minhas pernas e se ajoelhou como quem pede auxílio.
Primor de culpa, de lamentação, de solidez manchada a cândida, saliva e prazo.
Fez de mim barreira e eu o fiz explosão.
Elástica, me espreguicei.
Num abraço, desmoronamos.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
Película
Meu problema consiste em ser.
Ser
infinita e ser ruminante. O prato feito nunca acaba, e é bonito repetir.
Pode
acarretar em uma ou outra perda qualquer, comum: um trem que chegou e não prestará
serviço, uma frustração intelectual pós-leitura ou uma fatia de pão mofado. O
essencial é que a perda, por si só, esteja acoplada à criação das setecentas e
tantas expectativas.
Ruminar
o infinito significa nada além de estagnar-se dentro de uma invenção.
Shoulder to shoulder
Eu quero viver escrevendo sobre meus amantes. Escrever
sobre cada detalhe, cada pedacinho daquilo que um dia eles, por vontade própria
e única, me mostraram. Gosto do detalhe, das aspas sem contenções. Gosto das
sombras, e das sobras mais íntimas que consigo raspar.
Gosto
quando o canto da boca ameaça sinceridade em um meio sorriso.
Gosto do puro, do não-ensaiado, do simples e do
leigo de qualquer entrega, em sua totalidade.
As pessoas pelas quais tenho maior interesse são as
infelizes. Não sei ao certo por quê.
Talvez
porque eu considere a exposição de sensibilidade uma das coisas mais bonitas
que já vi. A entrega dos pontos, o assumir que é assim e à merda com o orgulho.
A exposição do seu próprio ser, cru.
Sentimentos.
Mesmo que os piores, que os rasgantes. Porque mostram o desconforto em relação
à significação de cada passo que somos, diariamente, condicionados a arrastar.
Pessoas tristes sentem-se não-pertencentes.
Sentem-se alheias a um sistema em que sentir prazer é fundamental, e, mais
ainda, obrigatório. Se isolam porque, verdadeiramente, não sentem. E não há
remédio-floral-religião-auto-ajuda que vai fazê-los engolir e sorrir, mecânicos.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Sobre uma leveza insustentável
Largar mão daquilo que é de graça, do que vem do lado, de dentro.
O que corrói é de um todo completo, e agrada em peso aos retalhos esgarçados.
Seria, inclusive, de interessante liquidez, não fosse a dificuldade em sustentar-se sobre um só palmo.
Sobre uma só pétala.
Seria, inclusive, de interessante liquidez, não fosse a dificuldade em sustentar-se sobre um só palmo.
Sobre uma só pétala.
Perfeito selvagem, eu diria, aquele que se constrói no raso do contato de um fim de tarde desconcertante.
Análise tipográfica, iconográfica e cefalométrica de uma - muito mais próxima do que distante, embora, ainda, estranha - oficina de idéias. O que lêem as mãos, lêem os olhos, e lêem o receio.
A reafirmação do ser humano como um ser de vísceras e cérebro em constante elasticidade.
A reafirmação do ser humano como um ser de vísceras e cérebro em constante elasticidade.
Um observar rasteiro diante dos muros sujos do outro lado do pátio.
Só podia ser histeria; jamais amor.
Só podia ser histeria; jamais amor.
sábado, 3 de março de 2012
Ser humano é ser social.
Ser humano é ser sentimento.
Não é pelo fato de não haver conhecimento profundo, em determinados pontos de observação, entre duas ou mais pessoas, que está impossibilitada a ideia de compartilhar uma crença, um pensamento, e, principalmente, uma emoção.
Imagens, músicas e textos se fundem em incessantes buscas para expressar aquilo que é impossível de ser verbalizado. Esses processos surgem intrínsecos e necessários, e são incansavelmente utilizados para aliviar tensões e para evitar que, por ventura, nos aventuremos a despencar nos abismos da depressão.
Não é de hoje que ouço sobre as-grandes-virtudes-abandonadas-e-substituídas-pelos-caprichos-vazios-dessa-nova-geração. Concordo que, atualmente, e sobretudo nos quesitos "pensar", "se relacionar" e "humanizar", há, de fato, muito a ser questionado. Mas considero inconcebível que o compartilhar de uma lágrima seja entendido e dado convictamente como falso, ou mero jogo de indiretas, única e simplesmente pelo fato de estar sendo gritado, mais uma vez, mudo, publicamente. Por que compartilhar um sorriso pode ser, então, permitido?
É do ser humano expressar-se, mostrar-se, sentir-se. É do ser humano ter consciência real da própria dor. É do ser humano identificar-se completamente - ou não - com o conteúdo expresso na linguagem subjetiva do outro.
Ser humano é ser necessidade de exteriorizar emoções.
E é ser golpeado pela vontade de poder mostrá-las ao mundo.
Assim como a literatura é vista como imortal por possuir virtudes atemporais, uma vez que a identificação espiritual entre leitor e escritor mostra-se como sua principal forma de denotar algum sentido à existência, essa mesma identificação é buscada pelo ser dentro do mais cru de sua cerne.
"Quem sou eu?"
"Eu sou assim"
"Eu quero ser assim"
"Eu quero que você me veja assim".
Um rabisco cravado ao corpo comunica ao mundo a apreciação que ele possui sobre determinado símbolo. A participação dele em determinado grupo. A entrega fluida a determinada arte. O lema, religiosamente seguido, que impulsiona todas as suas formas de agir.
A tatuagem nada mais é do que um entre tantos gritos mudos, cuja função consiste em mostrar um algo para um todo. Qualquer (des)conhecido é capaz de captar e reproduzir a mensagem visualizada - sendo essa compreendida na forma inicialmente idealizada ou não.
A verdade é que o ser humano vive constantemente na busca de mostrar ao universo aquilo que é e aquilo que tem. Aquilo que acredita.
Em eras digitais, o "compartilhar" tornou-se comum. Conhecimento, cultura e ideais.
Assim como, por muito tempo, o caderno pôde ser - e ainda é - visto como principal objeto usado para reprodução escrita das aulas lecionadas, ou usado para descrever afetividades pulsantes, hoje os Blogs e as Mídias Sociais advêm para tomar, gradualmente, seus lugares. Fato que não desvaloriza o mínimo da veracidade de um sentimento.
"Eu sou assim"
"Eu quero ser assim"
"Eu quero que você me veja assim".
Um rabisco cravado ao corpo comunica ao mundo a apreciação que ele possui sobre determinado símbolo. A participação dele em determinado grupo. A entrega fluida a determinada arte. O lema, religiosamente seguido, que impulsiona todas as suas formas de agir.
A tatuagem nada mais é do que um entre tantos gritos mudos, cuja função consiste em mostrar um algo para um todo. Qualquer (des)conhecido é capaz de captar e reproduzir a mensagem visualizada - sendo essa compreendida na forma inicialmente idealizada ou não.
A verdade é que o ser humano vive constantemente na busca de mostrar ao universo aquilo que é e aquilo que tem. Aquilo que acredita.
Em eras digitais, o "compartilhar" tornou-se comum. Conhecimento, cultura e ideais.
Assim como, por muito tempo, o caderno pôde ser - e ainda é - visto como principal objeto usado para reprodução escrita das aulas lecionadas, ou usado para descrever afetividades pulsantes, hoje os Blogs e as Mídias Sociais advêm para tomar, gradualmente, seus lugares. Fato que não desvaloriza o mínimo da veracidade de um sentimento.
Não é pelo fato de não haver conhecimento profundo, em determinados pontos de observação, entre duas ou mais pessoas, que está impossibilitada a ideia de compartilhar uma crença, um pensamento, e, principalmente, uma emoção.
Imagens, músicas e textos se fundem em incessantes buscas para expressar aquilo que é impossível de ser verbalizado. Esses processos surgem intrínsecos e necessários, e são incansavelmente utilizados para aliviar tensões e para evitar que, por ventura, nos aventuremos a despencar nos abismos da depressão.
Não é de hoje que ouço sobre as-grandes-virtudes-abandonadas-e-substituídas-pelos-caprichos-vazios-dessa-nova-geração. Concordo que, atualmente, e sobretudo nos quesitos "pensar", "se relacionar" e "humanizar", há, de fato, muito a ser questionado. Mas considero inconcebível que o compartilhar de uma lágrima seja entendido e dado convictamente como falso, ou mero jogo de indiretas, única e simplesmente pelo fato de estar sendo gritado, mais uma vez, mudo, publicamente. Por que compartilhar um sorriso pode ser, então, permitido?
O agradável é sempre certo.
O pesar alheio incomoda àqueles que carregam, em chamas apagadas, suas próprias barras de ferro.
É do ser humano expressar-se, mostrar-se, sentir-se. É do ser humano ter consciência real da própria dor. É do ser humano identificar-se completamente - ou não - com o conteúdo expresso na linguagem subjetiva do outro.
Uma aflição exteriorizada pode ser a mais enérgica das artes, quando, e, se, exteriorizada.
E ninguém tem nada com isso.
E todos falam. E todos vivem. E todos são, isso.
E ninguém tem nada com isso.
E todos falam. E todos vivem. E todos são, isso.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Sobre a imprevisibilidade que é ser matéria.
Fraqueza e Força decidiram competir: apostaram sobre quem seria capaz de abraçar mais intenso. Deu empate; e o silêncio se quebrou em lágrima ardida.
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