terça-feira, 1 de maio de 2012

Sobre uma leveza insustentável

Largar mão daquilo que é de graça, do que vem do lado, de dentro.
O que corrói é de um todo completo, e agrada em peso aos retalhos esgarçados.
Seria, inclusive, de interessante liquidez, não fosse a dificuldade em sustentar-se sobre um só palmo.
Sobre uma só pétala.
Perfeito selvagem, eu diria, aquele que se constrói no raso do contato de um fim de tarde desconcertante.

Análise tipográfica, iconográfica e cefalométrica de uma - muito mais próxima do que distante, embora, ainda, estranha - oficina de idéias. O que lêem as mãos, lêem os olhos, e lêem o receio.
A reafirmação do ser humano como um ser de vísceras e cérebro em constante elasticidade.

Um observar rasteiro diante dos muros sujos do outro lado do pátio.
Só podia ser histeria; jamais amor.

sábado, 3 de março de 2012

Ser humano é ser social.
Ser humano é ser sentimento.
Ser humano é ser necessidade de exteriorizar emoções.

E é ser golpeado pela vontade de poder mostrá-las ao mundo.

Assim como a literatura é vista como imortal por possuir virtudes atemporais, uma vez que a identificação espiritual entre leitor e escritor mostra-se como sua principal forma de denotar algum sentido à existência, essa mesma identificação é buscada pelo ser dentro do mais cru de sua cerne.

"Quem sou eu?"
"Eu sou assim"
"Eu quero ser assim"
"Eu quero que você me veja assim".

Um rabisco cravado ao corpo comunica ao mundo a apreciação que ele possui sobre determinado símbolo. A participação dele em determinado grupo. A entrega fluida a determinada arte. O lema, religiosamente seguido, que impulsiona todas as suas formas de agir.
A tatuagem nada mais é do que um entre tantos gritos mudos, cuja função consiste em mostrar um algo para um todo. Qualquer (des)conhecido é capaz de captar e reproduzir a mensagem visualizada - sendo essa compreendida na forma inicialmente idealizada ou não.

A verdade é que o ser humano vive constantemente na busca de mostrar ao universo aquilo que é e aquilo que tem. Aquilo que acredita.

Em eras digitais, o "compartilhar" tornou-se comum. Conhecimento, cultura e ideais.
Assim como, por muito tempo, o caderno pôde ser - e ainda é - visto como principal objeto usado para reprodução escrita das aulas lecionadas, ou usado para descrever afetividades pulsantes, hoje os Blogs e as Mídias Sociais advêm para tomar, gradualmente, seus lugares. Fato que não desvaloriza o mínimo da veracidade de um sentimento.

Não é pelo fato de não haver conhecimento profundo, em determinados pontos de observação, entre duas ou mais pessoas, que está impossibilitada a ideia de compartilhar uma crença, um pensamento, e, principalmente, uma emoção.

Imagens, músicas e textos se fundem em incessantes buscas para expressar aquilo que é impossível de ser verbalizado. Esses processos surgem intrínsecos e necessários, e são incansavelmente utilizados para aliviar tensões e para evitar que, por ventura, nos aventuremos a despencar nos abismos da depressão.

Não é de hoje que ouço sobre as-grandes-virtudes-abandonadas-e-substituídas-pelos-caprichos-vazios-dessa-nova-geração. Concordo que, atualmente, e sobretudo nos quesitos "pensar", "se relacionar" e "humanizar", há, de fato, muito a ser questionado. Mas considero inconcebível que o compartilhar de uma lágrima seja entendido e dado convictamente como falso, ou mero jogo de indiretas, única e simplesmente pelo fato de estar sendo gritado, mais uma vez, mudo, publicamente. Por que compartilhar um sorriso pode ser, então, permitido?
O agradável é sempre certo.
O pesar alheio incomoda àqueles que carregam, em chamas apagadas, suas próprias barras de ferro.

É do ser humano expressar-se, mostrar-se, sentir-se. É do ser humano ter consciência real da própria dor. É do ser humano identificar-se completamente - ou não - com o conteúdo expresso na linguagem subjetiva do outro.
Uma aflição exteriorizada pode ser a mais enérgica das artes, quando, e, se, exteriorizada.
E ninguém tem nada com isso.
E todos falam. E todos vivem. E todos são, isso.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sobre a imprevisibilidade que é ser matéria.

Fraqueza e Força decidiram competir: apostaram sobre quem seria capaz de abraçar mais intenso. Deu empate; e o silêncio se quebrou em lágrima ardida.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Isso porque andei lendo bulas demais

Meus antecedentes inculpáveis me confirmam: nada mais válido que um crime passional.

Eu, agarrada aos sons e movimentos festivos de xícaras lascadas sobre uma velha mesa semi-posta, permaneço eternamente imersa nas linhas rasgadas de um Talvez.

sábado, 24 de dezembro de 2011

New Age

Abandonei por completo meu caderno retalhado durante esse ano. Talvez por falta de tempo, ou de tédio. Me parece piegas demais tentar discorrer sobre o-quanto-esse-ano-foi-diferente-e-maluco, então me contento em deixar registrado, apenas, que Novo e Antigo, ao mesmo tempo súbitos, foram os responsáveis pelas irregulares oscilações de todos os sentimentos dentro de mim. E eu, ao fim de cada flash desesperado, apenas me deixei ser.

Terminei de ler "O Estrangeiro" ontem e sinto que preciso de uma reabilitação urgente. Talvez eu devesse ter me sentido, de fato, à parte, lendo Camus. Engraçado... Só consegui sentir naturalidade. Como se entendesse a fundo a simples e constante aceitação exercida por Mersault. O básico do que seria um não-envolvimento-aprofundamento-ou-qualquer-outra-dessas-caralhas-sentimentalistas.

Talvez o fato de não andar mais trepensando minhas histórias cotidianas por aí seja o que vem me deixando mais assustada. Algo nos ambientes, nas pessoas ou nos acontecimentos desse ano me fizeram perder parte de algo íntegro que sempre considerei importante. Hoje quase não dá tempo de me arrepender de qualquer coisa. Estou constantemente esperando a próxima etapa. E tenho a impressão de que todos estão assim.
Estamos todos destinados a uma espécie de mundo oco. À completa perda da consciência, em seu sentido mais profundo. O foco de hoje é outro. No vazio.

Em meio a toda essa filosofia de bar, a única conclusão plausível que me ocorre é a de que estou inconformada simplesmente pelo fato de não conseguir me inconformar.
Bom, deve existir algo de bonito dentro disso tudo, afinal. Algo que me segure, talvez, para que eu não me esqueça do pedaço de mim que vez ou outra insiste em me gritar, mesmo em sussurros, "não desacredite, não desacredite, não desacredite..."

Feliz Natal (grande merda).

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Eu quero escrever "tanto faz" em um guardanapo e distribuir no ano novo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Três

Me apaixono por uma pessoa diferente a cada dia que nasço. Me entrego ao todo, imersa, e aí só enxergo o exclusivo do momento. Sem o "amor" de antes de ontem, que não é o mesmo de ontem, que não é o mesmo de amanhã. Sem nenhum deles, sem consequências e sem paredes. Só paixão, corriqueira, assim.
Nas minhas veias corre Encanto.
É de intensidade alternada a cada manhã histérica que me formo.
Intensa.
Que me sou.
Inteira.
Que me existo.
É por isso que a gente existe.
Por instantes.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

(...)
"Daí a gente pede salada e fica cheia. Daí a gente bebe e fica esvaziada. E nada disso tem a ver com essa fome. Daí a gente segura firme o braço de uma pessoa. Troncos alheios e descartáveis para não afundar no mar gelado e escuro dos raros momentos em que a solidão parece o caminho mais difícil.

Mas no meio de tantas tentativas frustrantes de abrir com uma ponta fina de faca o peito coberto de mentira, existem ainda esses momentos em que o oxigênio entra tão branco e gelado e de longe, que notamos, não sem saudade, quão fétida, frágil, medíocre e quente é a nossa falsa segurança".

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Um brilho de aluguel

Hoje acordei em meio à fumaça colorida das luzes piscantes. Sonho, mofo e lágrima.
Levantei cambaleando até minha janela, de onde dá pra ver piscar longe aquele relógio verde de um fluorescente que faz arder. Dez horas. Dez horas e eu, com esses olhos borrados de ontem, já esperando o fim do dia pra mais um copo daquilo que me denominaram, certa vez, Vida.

Um shot amargo de café e o livro amassado que há um ano era seu. "Deixe o Grande Mundo Girar". Um quê de irônico nessas linhas, nessas páginas enrugadas pelo copo de água que você deixou molhar - e que nem o secador deu conta de fazer voltar ao normal.
O livro não fecha direito.

"Vamos nos reajustando". Nos afastando, você diz.
Nos desencontrando.
Nos perdendo para-sempre-amém.
"Ah, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor".
Engraçada a lucidez com que sempre estivemos, sem esforços, sem ruídos. Só a respiração que parecia flutuar. E agora essa garrafa anêmica e esses olhos vidrados e esses giros, esses sons, essas risadas altas e toda essa palhaçada ensaiada que me prova somente o quão toscas são essas paredes.

Viver uma vida unicamente minha, repleta de todas essas confissões bordadas com papel. Sentir vento forte me arrastando pra todos aqueles antes in-co-gi-tá-veis cantos, ao mesmo tempo em que me bate bruto e gélido no rosto.

"A verdade, meu amor, a triste verdade", é que no despertar de todas as manhãs preguiçosas seguintes àqueles momentos híbridos de risada involuntária, tudo o que lhe resta é a casa vazia, um celular que não-vai-tocar, uma sede incontrolável e a incessante solidão.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Duas pesos... dois medidas?

Imaginação.
Subconsciente.
Propostas criadas como resposta à agonizante contração mental.

Conversas construídas por silêncio. De tão idealizadas e incessantemente repetidas, tornam-se quase que concretas. São tidas como verdade pelo som vazio dos transportes públicos ou mesmo pelos inquietos dedos atormentando a madeira.
São (ilusoriamente) incentivadas pelos saudáveis 140 caracteres que, querendo dizer tudo, acabam abstraindo qualquer "estupor mental" fielmente estabelecido.
Nada que um mau-humor, um descaso ou um súbito comentário-coice não resolva, pra quebrar a bolha de distorção. Essas coisas são engraçadas.

Por mexer com palavras e naturalmente utilizá-las de forma subliminar de-mim-para-comigo-mesma, acredito que todos conversam assim, quase que dentro do meu mundo, alheio e histérico. E me prendo em detalhes de conversas, na palavra-que-foi-utilizada-no-lugar-da-que-não-foi, em olhares que me gritam, com e sem palavras, desenhos de fragilidade, insegurança e dúvida.
Eu não sei lidar com a (minha) dúvida.

Sempre me julguei um tanto direta, talvez por ter claro, e até óbvio, para mim mesma, aquilo que quero. Demonstrações costumavam ser mais frequentes, admito, embora as que (ainda) consigo expelir hoje em dia me pareçam de todo notáveis. Entretanto, em conversas imparciais, por ontem, ou por qualquer algum-outro-dia dessa semana batida, assumi minha surpresa por não reparar no m-e-s-m-o, torto e superficial que, me frisaram: faço. E invento reações, atuações e respostas, com palavras decoradas e absolutamente-completamente-estupidamente justificadas.

Minha imaginação de mãos apertadas com minha sanidade, em uma disputa suplicante e amigável por um segundo de certeza.

Dois litros de impaciência por dia.
Excitação e frustração, em alternância, em doses semanais.
Uma pitada rasa e tímida de ciúme, por hoje.